Na disciplina de Informática da Universidad Católica Nuestra Señora de la Asunción, campus Alto Paraná, sob a condução do professor licenciado Marcos Rivarola, fomos convidados a olhar para a inteligência artificial não como uma promessa distante, mas como uma presença já inscrita no cotidiano da medicina; e, ao nos aproximarmos desse campo, percebemos que não se trata apenas de máquinas que aprendem, mas de um novo modo pelo qual o saber médico se reorganiza, silenciosamente, diante de nós.
A inteligência artificial, em sua aparência mais imediata, oferece precisão, velocidade e capacidade de análise que ultrapassam o limite humano; algoritmos capazes de identificar padrões em exames de imagem, prever riscos clínicos e sugerir condutas terapêuticas começam a ocupar um espaço antes reservado exclusivamente ao olhar do médico. No entanto, há algo que resiste: o encontro clínico, esse lugar onde o sofrimento não se reduz a dados, onde o paciente não é apenas um conjunto de variáveis, mas alguém que fala, que teme, que espera.
É precisamente nesse ponto que a reflexão se impõe. Porque, se por um lado a inteligência artificial amplia o alcance do diagnóstico, por outro ela nos confronta com uma pergunta que não pode ser automatizada: o que significa cuidar? A medicina, desde suas origens, não se funda apenas na técnica, mas em uma relação — e toda relação implica escuta, tempo e presença; elementos que não podem ser plenamente traduzidos em código.
Quanto mais a máquina se aproxima da exatidão, mais o humano é chamado a sustentar o sentido.
Há, portanto, um risco silencioso: o de que, fascinados pela eficiência dos sistemas, passemos a deslocar a responsabilidade clínica para o cálculo; e, nesse movimento, o médico deixe de ser aquele que interpreta para tornar-se aquele que apenas valida. Mas a prática médica exige mais do que validação: exige discernimento, prudência e, sobretudo, responsabilidade ética diante da singularidade de cada caso.
Ao mesmo tempo, negar a inteligência artificial seria ignorar uma das mais profundas transformações do nosso tempo. Ela pode auxiliar na redução de erros, ampliar o acesso à saúde e democratizar informações que antes estavam restritas a poucos centros especializados. Em contextos de escassez, pode significar a diferença entre o diagnóstico e o esquecimento.
Não é a máquina que ameaça a medicina; é o esquecimento do humano que a esvazia.
Dessa forma, o desafio que se apresenta não é o de escolher entre homem e máquina, mas de compreender como integrar ambos sem que um anule o outro. A inteligência artificial deve ser compreendida como instrumento — potente, sofisticado, necessário —, mas ainda assim instrumento; e todo instrumento requer uma mão que o conduza e um olhar que o interprete.
Na formação médica, isso implica algo mais profundo do que aprender a utilizar ferramentas digitais. Implica formar médicos capazes de sustentar uma posição ética diante da tecnologia, de questionar seus limites e de reconhecer que nem tudo o que pode ser calculado pode, de fato, ser compreendido.
Entre o algoritmo e o silêncio do paciente, ainda será o médico quem deverá responder.
Este texto, elaborado no contexto acadêmico da disciplina de Informática, não pretende encerrar o tema, mas abrir uma via de reflexão; porque a inteligência artificial, ao mesmo tempo em que reorganiza a medicina, nos obriga a retornar à sua origem: o cuidado com o outro.
Considerações
A inteligência artificial na medicina não substitui o médico, mas redefine seu lugar: quanto mais avançam os sistemas, mais se torna necessário um profissional capaz de sustentar a dimensão humana do cuidado, integrando técnica e escuta em um tempo que tende a privilegiar apenas o que pode ser medido.
Edgar Ivan Sosa Sosa
Leonid R. Bózio

