Os perigos da melatonina: por que o “hormônio do sono” não é tão inofensivo assim
Nas prateleiras de farmácias e marketplaces, a melatonina aparece como solução rápida para vencer a insônia: comprimidos, gotas, gomas, sprays; embalagens coloridas que prometem um sono profundo e restaurador. Por ser um hormônio produzido naturalmente pelo corpo, muita gente conclui que, se é “natural”, não pode fazer mal. Mas a ciência – e a clínica – contam uma história bem mais complexa.
Este texto é informativo; não substitui avaliação médica. Se você usa melatonina (ou pensa em usar), converse com seu médico antes de iniciar, ajustar ou suspender qualquer suplemento.
O que é a melatonina e como ela deveria ser usada
A melatonina é um hormônio produzido pela glândula pineal, principalmente à noite, em resposta à diminuição da luz; ela ajuda a regular o relógio biológico (ritmo circadiano) e a preparar o corpo para o sono.
Em vários países, a melatonina é tratada como medicamento sujeito a prescrição; em outros, é vendida como suplemento “natural” de uso livre – muitas vezes em doses bem maiores que as produzidas pelo organismo.
No Brasil, a Anvisa autorizou, em 2021, o uso da melatonina na forma de suplemento alimentar, exclusivamente para pessoas com 19 anos ou mais, com dose diária máxima de 0,21 mg e sem qualquer alegação aprovada de benefício para saúde ou tratamento de doença[1].
Na prática, porém, o que se vê são produtos com 1 mg, 3 mg, 5 mg ou mais, além de fórmulas manipuladas muito acima desse limite.
É justamente nesse abismo entre “como deveria ser usada” e “como está sendo usada” que se acumulam os perigos da melatonina.
Perigo 1 – A banalização: quando o “natural” vira automedicação crônica
Um estudo publicado na revista JAMA mostrou que o uso de suplementos de melatonina entre adultos nos EUA aumentou significativamente nas últimas décadas, incluindo uma parcela de pessoas tomando doses iguais ou superiores a 5 mg por dia – bem acima do que o corpo produz naturalmente[2].
A mensagem implícita é sedutora: se eu não durmo, tomo “um hormônio natural” e resolvo o problema. Mas a insônia raramente é apenas “falta de melatonina”; ela costuma estar ligada a:
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estresse crônico e sobrecarga psíquica;
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ansiedade e depressão;
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uso de telas à noite, irregularidade de horários, café, álcool;
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conflitos inconscientes que emergem justamente na hora em que o mundo se cala.
Na clínica psicanalítica, é comum ver pacientes que chegam já tomando melatonina por conta própria. Dormem “um pouco melhor”; mas seguem sem compreender por que o corpo resiste ao repouso. O sintoma é anestesiado; a causa permanece. Quando o sono é fabricado à força, a angústia apenas muda de lugar.
Perigo 2 – Doses imprecisas e produtos contaminados
Outro problema sério é que o que está no rótulo nem sempre corresponde ao que está dentro do frasco.
Um estudo clássico publicado no Journal of Clinical Sleep Medicine analisou suplementos de melatonina e encontrou uma variação impressionante: de –83% a +478% em relação à dose declarada no rótulo. Em alguns casos, o mesmo produto variava até 465% entre lotes diferentes; em vários suplementos foi encontrado inclusive serotonina como contaminante, um composto farmacologicamente ativo que não deveria estar ali[3].
Outro trabalho, publicado na JAMA, avaliou gomas de melatonina vendidas nos EUA (algumas associadas a CBD) e mostrou que muitas continham mais melatonina do que o anunciado, além de concentrações de canabidiol diferentes das rotuladas[4].
Em paralelo, autoridades sanitárias vêm encontrando irregularidades em produtos não registrados. A agência reguladora da Austrália (TGA), por exemplo, testou sleep aids com melatonina – inclusive gomas infantis – e achou produtos com mais de 400% da dose indicada no rótulo, emitindo alerta de risco de sobredosagem, especialmente em crianças[5].
No Brasil, a Anvisa já chegou a proibir a venda de uma marca de melatonina sublingual por entender que não havia segurança suficiente na forma de uso indicada[6].
Quando falamos de hormônios e de crianças, essa imprecisão deixa de ser detalhe: torna-se um risco real.
Perigo 3 – Efeitos adversos “leves” que se acumulam
Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2023 na revista EClinicalMedicine (The Lancet) analisou ensaios clínicos com melatonina e encontrou um dado importante: embora não tenha sido detectado aumento de eventos graves, o número de pessoas com efeitos adversos não graves foi significativamente maior no grupo que usou melatonina em comparação ao placebo[7].
Entre os efeitos relatados em estudos e revisões recentes estão:MDPI+1
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sonolência diurna e sensação de “ressaca” no dia seguinte;
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cefaleia, náusea, tontura;
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sonhos vívidos e pesadelos;
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fadiga, irritabilidade e alterações de humor.
Alguns pacientes relatam um “sono bom nas primeiras horas”, seguido por despertar no meio da noite e dificuldade para voltar a dormir, especialmente com doses altas[8].
Além disso, a melatonina pode interagir com vários medicamentos, incluindo[9]:
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anticoagulantes;
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imunossupressores (como em transplantados);
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alguns antidepressivos e medicamentos para epilepsia;
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fármacos metabolizados pelo sistema enzimático CYP1A2.
Ou seja: o “remedinho natural para dormir” pode não ser tão inocente em pessoas com condições clínicas já complexas.
Perigo 4 – Uso em crianças e adolescentes: uma falsa solução “inofensiva”
A Academia Americana de Medicina do Sono (AASM) emitiu um alerta recente sobre o uso crescente de melatonina em crianças e adolescentes. A entidade destaca:
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a melatonina já é o segundo produto “natural” mais usado por pais em crianças, perdendo apenas para multivitamínicos;
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houve aumento importante de casos de intoxicação, chamadas para centros de controle de envenenamento e atendimentos de emergência envolvendo melatonina infantil, especialmente durante a pandemia[9].
Revisões clínicas apontam que, em curto prazo, a melatonina pode ajudar alguns quadros específicos (por exemplo, certos transtornos do neurodesenvolvimento), mas ressaltam a necessidade de cautela, monitoramento e supervisão profissional – sobretudo pela falta de dados robustos sobre uso prolongado na infância[10].
O problema não é apenas biológico; é simbólico:
quando oferecemos uma “bala para dormir” à criança, ensinamos, sem palavras, que o corpo precisa de química para fazer um movimento que, em princípio, deveria ser regulado por rotina, cuidado e presença.
Perigo 5 – Sinais de alerta para o coração?
Em 2025, um grande estudo observacional apresentado nas Sessões Científicas da American Heart Association analisou mais de 130 mil adultos com insônia. Os pesquisadores observaram que pessoas que relataram uso de melatonina por um ano ou mais tinham[11]:
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cerca de 90% mais risco de desenvolver insuficiência cardíaca;
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maior mortalidade por todas as causas;
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maior chance de hospitalização por insuficiência cardíaca, em comparação a pessoas com insônia que não usavam melatonina.
É fundamental frisar:
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trata-se de um estudo observacional;
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os autores não afirmam que a melatonina causa insuficiência cardíaca;
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é possível que a melatonina esteja funcionando como marcador indireto de quadros mais graves (insônia severa, comorbidades, uso de outros medicamentos etc.).
Mesmo assim, o estudo acende uma luz amarela importante: o uso crônico e em doses elevadas de um hormônio, por anos, não pode ser tratado como detalhe. Falta muita pesquisa; mas o cenário não autoriza uma atitude ingênua.
Perigo 6 – Silenciar o sintoma: quando a psique pede escuta, não sedação
Do ponto de vista psicanalítico, a questão talvez seja ainda mais delicada.
O sono não é apenas uma função biológica; ele é atravessado por desejos, medos, fantasias, culpas, pensamentos intrusivos. Freud chamava os sonhos de via régia para o inconsciente; poderíamos dizer que a insônia também é uma espécie de “carta” do psiquismo.
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Há pessoas que só conseguem pensar em certos temas à noite;
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Outras, quando deitam, encontram pensamentos que evitam durante o dia;
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Há quem tema o silêncio, a escuridão, o próprio mundo interno.
Se, diante disso, a única resposta for “mais melatonina”, corremos o risco de transformar o hormônio em um tampão; um jeito químico de não escutar aquilo que nos desperta. Dormir a qualquer custo pode ser, às vezes, uma forma sofisticada de fugir de si mesmo.
Isso não significa demonizar o uso médico responsável; mas lembrar que o sofrimento com o sono pede tanto um olhar clínico quanto um espaço de fala, de elaboração, de análise.
Quem deve ter cuidado redobrado com a melatonina
Guias de entidades especializadas em sono alertam que a melatonina não é recomendada – sobretudo sem acompanhamento médico – para pessoas que[12]:
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estão grávidas ou amamentando;
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têm transtornos hemorrágicos ou usam anticoagulantes;
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são transplantadas ou usam imunossupressores;
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têm epilepsia ou histórico de convulsões;
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apresentam depressão importante ou ideação suicida;
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fazem uso de múltiplos medicamentos metabolizados pelo fígado.
No Brasil, a própria Anvisa enfatiza que pessoas com doenças ou em uso de medicamentos devem consultar o médico antes de consumir melatonina; lembra ainda que não há alegações de benefício aprovadas para suplementos de melatonina – ou seja, o marketing costuma prometer mais do que a ciência, até agora, autoriza[13].
Alternativas mais seguras: corpo, rotina e escuta
Antes de recorrer ao comprimido, alguns pilares básicos costumam fazer grande diferença na qualidade do sono:
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Higiene do sono: horário relativamente fixo para dormir e acordar; reduzir telas à noite; evitar cafeína e nicotina próximo do horário de dormir; cuidar da iluminação do ambiente.
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Rotinas de desaceleração: leitura tranquila, oração, respiração, diário, pequenos rituais de fechamento do dia; o corpo precisa entender que “a noite começou”.
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Trabalho psíquico: em muitos casos, a insônia está ligada a conflitos não elaborados, lutos, traumas, ansiedades profundas; aqui, a psicanálise pode ajudar a encontrar sentido naquilo que o corpo insiste em não acalmar.
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Uso médico criterioso da melatonina: em alguns quadros específicos – por exemplo, certos distúrbios do ritmo circadiano ou em condições neurológicas – há estudos que mostram benefício quando a melatonina é prescrita, em dose e tempo adequados, dentro de um plano terapêutico mais amplo[14].
Em outras palavras: o caminho não é demonizar a melatonina; mas situá-la no seu devido lugar, longe da ideia de “bala mágica para dormir”.
Uma leitura para quem quer pensar o sono para além do comprimido
Para quem deseja aprofundar o sentido psíquico do sono e dos sonhos, uma leitura clássica continua atual:
Sigmund Freud, A Interpretação dos Sonhos (Die Traumdeutung, 1900).
Não se trata de um manual de higiene do sono, mas de um convite a compreender como o inconsciente fala nas imagens oníricas; e como o que ocorre à noite está profundamente ligado ao que não encontramos palavras para dizer durante o dia.
O corpo que não dorme, muitas vezes, é o corpo que não suporta mais calar.
Considerações
Os perigos da melatonina não residem apenas na substância em si; mas, sobretudo, na forma como a sociedade a tem usado: doses incertas; produtos contaminados; automedicação crônica; uso em crianças sem avaliação; expectativas irreais de que um hormônio “natural” resolverá, sozinho, o mal-estar de uma época marcada por ansiedade, excesso de estímulos e falta de pausa.
A boa notícia é que ainda há tempo de recolocar a melatonina no seu devido lugar: um possível recurso terapêutico, em contextos específicos, sob orientação profissional – e não um amuleto químico contra todos os desesperos noturnos. Cuidar do sono é cuidar do corpo, da rotina e, também, da alma; abrir espaço para o que dói, para o que inquieta, para aquilo que o comprimido tenta, mas não consegue, silenciar.
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por Leonid R. Bózio
Ciudad del Este, Paraguay, novembro de 2025 anno Domini

