Heitor e Ulisses: da epopeia à sátira cósmica
Na primeira quinta-feira de setembro (4/09), nosso Grupo de Leitura se reuniu para discutir a primeira parte de O Planeta dos Macacos, de Pierre Boulle. Logo na abertura, emergiu uma ponte inesperada: o livro conversa com a Ilíada e a Odisseia como quem parodia, desloca, reinventa. A viagem para longe, antes mar e astros de Homero, agora espaço e tempo relativístico, continua sendo o mesmo drama: o humano confrontando o estranho, e, nesse confronto, reencontrando a si mesmo.
Grupo de Leitura de Psicanálise: Heitor e Ulisses
Heitor, em Homero, é o rosto nobre da resistência, o guerreiro que sustenta Troia por amor ao lar e à cidade. Em Boulle, “Heitor” é um chimpanzé levado pela tripulação, um nome que carrega, ironicamente, a memória da honra épica para, de súbito, rebaixá-la a mascote. A transposição nada tem de gratuita: quando o herói vira animal de estimação, o eixo do humano treme. E foi aqui que um detalhe do texto revelou sua potência simbólica.
Minha amiga, a psicanalista Jucirlei Fátima Arcego, também psicanalista, notou algo que eu havia deixado passar, embora estivesse à vista e no cerne do romance: a morte do macaco Heitor. Esse gesto, que parecia “apenas” uma cena de contato entre espécies, recoloca todo o tabuleiro. Ao perceber que Heitor vai de herói (na tradição do nome) a mascote morto, a narrativa expõe, com uma economia cruel, a queda do humano e a inversão de papéis: já não somos o centro estável que nomeia, mede e domina; somos a espécie cuja grandeza épica pode ser rebaixada ao índice de um corpo descartável.
Se Heitor concentra a honra e sua derrocada, Ulisses, ou melhor, Ulisses Mérou, encarna a astúcia viajante sob novo regime de estranhamento. Em Homero, Odisseu/Ulisses é senhor da mētis, o engenho que atravessa monstros e deuses rumo ao retorno; em Boulle, o Ulisses jornalista precisa decifrar um mundo onde macacos falam, organizam laboratórios e caçam humanos. A continuidade é clara: permanece o viajante que interpreta signos, aprende línguas, mapeia rotas de fuga. O deslocamento, porém, é radical: o retorno homérico (nostos – grego antigo: νόστος) ) cede lugar a um exílio ontológico, mesmo quando ele volta, quem garante que a “casa” ainda é casa? O herói da prudência, outrora artífice de caminhos, agora se vê, a cada passo, objeto de observação.
Se Heitor perde a honra, Ulisses perde a centralidade.
Grupo de Leitura de Psicanálise: o Planeta dos Macacos
Grupo de Leitura de Psicanálise: Heitor e Ulisses, da epopeia à sátira cósmica – A psicanálise nos ajuda a ler esse jogo de espelhos. Diante do Outro, a civilização símia, o humano se descobre des-identificado: a fantasia de superioridade cede, e com ela o narcisismo das pequenas diferenças. O nome “Heitor” torna-se sintoma: recorda um ideal heroico ao mesmo tempo em que registra o trauma de sua dessacralização. A morte do Heitor-mascote opera como curto-circuito simbólico: uma senha para entendermos que Boulle experimenta a epopeia ao avesso. Onde a Ilíada celebra a grandeza que cai sob o peso do destino, e a Odisseia celebra a astúcia que retorna, O Planeta dos Macacos satiriza a grandeza e desloca a astúcia: o humano torna-se lido, classificado, cativo e só então pergunta quem é o humano.
Nesse sentido, a escolha dos nomes é mais que homenagem: é hipótese filosófica. Heitor indica que a honra pode ser rebaixada ao estatuto de coisa; Ulisses indica que a razão astuta pode perder o chão quando a linguagem já não garante primazia. O que ainda nos resta, então? Talvez apenas o gesto de escuta — aquilo que o mito sempre exigiu do herói e que a clínica nos pede todos os dias: suspender certezas, suportar o estranho, nomear sem reduzir.
Volto ao nosso encontro.
Ao relermos a cena à luz da observação de Fátima J., percebemos que não se trata de detalhe periférico, e sim de chave de leitura. A morte de Heitor não é acidente narrativo: é signo. A partir dele, tudo o mais se reorganiza, inclusive Ulisses Mérou, que já não narra apenas a aventura de sair e voltar, mas testemunha a queda do humano como medida de todas as coisas. É como se Boulle perguntasse: quando nomeamos “Heitor”, o que nomeamos, o herói ou o nosso desejo de ainda tê-lo? E quando dizemos “Ulisses”, falamos do que volta ou do que não tem mais para onde voltar?
E mais…como não percebi a morte de Heitor, sendo que está clara no livro? hahahhah
Considerações
Grupo de Leitura de Psicanálise: Heitor e Ulisses, da epopeia à sátira cósmica – Talvez seja por isso que O Planeta dos Macacos ecoe como uma anti-epopeia: em vez de consagrar o herói, revela a ficção que sustentava a nossa heroicidade. Heitor, reduzido e morto; Ulisses, brilhante e deslocado. O resultado não é o niilismo, e sim uma lucidez desconfortável: para que haja humano, será preciso reaprender o humano.
Fecho com um convite: Na próxima reunião, primeira quinta-feira de outubro, leremos a parte 2. Traga suas perguntas, suas leituras homéricas, suas inquietações clínicas. Junte-se a nós: talvez, ao acompanharmos Ulisses e os símios um pouco mais adiante, descubramos de que retorno somos ainda capazes e….que espécie de Heitor ainda nos habita?
Conhece meus livros? estão disponíveis na AMAZON!
Agende sua sessão online! CLIQUE AQUI
ou
fale comigo diretamente comigo: Whatsapp
por Leonid R. Bózio
Brasília, setembro de 2025 anno Domini

