A máscara por trás do desejo
O escândalo envolvendo Sister Hong tomou proporções virais em julho de 2025. Na cidade de Nanjing, China, um homem de 38 anos se passou por uma mulher divorciada usando peruca, maquiagem e filtros digitais para seduzir centenas de homens em aplicativos de relacionamento. Apresentando-se como uma figura carismática e receptiva, conhecida como “irmã Hong”, ele promovia encontros íntimos com seus parceiros em casa, onde, sem o consentimento deles, instalou câmeras escondidas e gravou tudo. Os vídeos foram vendidos online, gerando lucro e repercussão mundial. A polícia confirmou a existência de ao menos 237 vítimas, embora boatos apontem números muito mais altos.
O caso gerou ondas de choque: memes, indignação, quebra de relacionamentos e discussões públicas sobre identidade, privacidade e desejo. Mas para além do escândalo e da moral pública, a psicanálise freudiana oferece instrumentos valiosos para compreender o que está em jogo: o inconsciente em ação, o desejo encenado, e o poder destrutivo da fantasia quando se alia à perversão.
A construção do eu e o uso da máscara
É possível perceber que em muitas situações o sujeito não é dono de si: o eu se constitui em conflito com suas instâncias internas. O ego, pressionado pelo superego e pelo desejo inconsciente, frequentemente adota máscaras, formas sociais de apresentação que tentam conciliar desejo e proibição. Sister Hong é, nesse sentido, uma construção psíquica e performativa: o autor do engano não apenas se disfarça para os outros, mas também se organiza a partir desse disfarce. A persona feminina que ele encarna é mais do que um artifício; é um cenário onde seu desejo pode atuar sem censura, onde a fantasia pode ser mantida e repetida.
Essa máscara, longe de ser mero artifício, revela algo do real: o desejo que não ousa nomear-se como tal, e que só encontra expressão por meio do jogo do engano. A imagem da “mulher divorciada e carente” é um objeto de transferência, tanto para os homens enganados quanto para o próprio sujeito, que parece gozar com o poder de conduzir o desejo alheio.
A fantasia como palco do gozo
A fantasia não é ilusão descartável, mas núcleo estruturante da experiência psíquica. Sister Hong aparece como o roteiro de encontros cuidadosamente encenados, onde o engano sustenta a cena erótica. O parceiro acredita estar com uma mulher; o desejo é real, ainda que o objeto seja ficcional. Esse deslocamento é a própria lógica da fantasia: o sujeito deseja, mas deseja “como se”.
Por trás disso, vemos o traço da estrutura perversa: não se trata de orientação sexual, mas de uma posição subjetiva frente à Lei e ao Outro. O perverso se posiciona como aquele que conhece o desejo do outro, que manipula esse desejo, e que goza não da relação, mas do poder de orquestrá-la. A gravação secreta, a posterior venda dos vídeos, e a exposição pública: tudo aponta para um circuito de gozo que não passa pelo afeto, mas pela dominação simbólica.
O olhar público como cena do trauma
A viralização do caso amplia a perversão para o plano coletivo. O que antes era privado, torna-se espetáculo: memes, risos, humilhações, curiosidade doentia. A psicanálise nomeia esse movimento como Unheimlich, o estranho que é familiar demais. O desejo, que deveria permanecer oculto, aparece nu; e isso assusta. O sujeito que vê sua intimidade exposta é confrontado com uma verdade que não deseja saber: a de que o desejo não respeita o ideal do eu, e que a sexualidade é mais ambígua do que gostaríamos de admitir.
Há algo profundamente perturbador na reação social: o prazer de ver o outro exposto, a repetição do trauma alheio como diversão. As redes sociais tornam-se palco de um gozo público, onde a empatia se dissolve e o escândalo substitui o pensamento. Para Freud, isso nada mais é do que a volta do recalcado: o que a cultura tentou expulsar retorna, disfarçado de meme.
Clínica do desejo e ética da escuta
Ao colocar em cena a ambiguidade do desejo, Sister Hong nos obriga a pensar os limites entre identidade e performance, entre fantasia e verdade, entre desejo e engano. Não se trata apenas de um crime, embora o seja, mas de um sintoma cultural. Um sintoma que aponta para a fragilidade das identificações modernas, para a velocidade com que o real é substituído pela imagem, e para a urgência de escutar, sem julgamentos apressados, o que os sujeitos dizem por meio de seus sintomas, repetições e disfarces.
Na clínica, aprendemos que todo sujeito traz suas máscaras; mas que há uma ética em sustentá-las apenas enquanto servem de ponte para o desejo. Quando a máscara se torna prisão, ou instrumento de humilhação do outro, é preciso intervir. A escuta analítica propõe o caminho oposto ao da exposição: acolher o disfarce, mas também provocar sua queda — não para humilhar, mas para fazer emergir algo da verdade do sujeito.
Indicação de leitura: Freud e a perversão
Para aprofundar a compreensão psicanalítica do caso Sister Hong, sugerimos a leitura de Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905), de Sigmund Freud. Nessa obra seminal, Freud investiga a formação da sexualidade humana, os destinos das pulsões e o surgimento das estruturas neurótica, perversa e psicótica — fundamentos essenciais para pensar os desvios e a força das fantasias inconscientes.
Considerações: Sister Hong:
O caso Sister Hong mostra que, na contemporaneidade, a psicanálise encontra campos inéditos de disfarce identitário, gozo voyeurístico e ética da visibilidade – onde a máscara desliza sobre o desejo, mas a verdade espreita por trás. Se este tema ressoou em você, continue acompanhando nossos artigos semanais.
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por Leonid R. Bózio
Brasília, de 2025 anno Domini
Sobre a imagem do artigo:
Na pintura clássica chinesa que acompanha este artigo, possivelmente datada das dinastias Ming ou Qing, vemos uma mulher em sua intimidade, enquanto um olhar oculto a observa sem seu consentimento. A composição é sutil: não há confronto, apenas a tensão silenciosa entre o que se mostra e o que se esconde. Essa cena evoca, com rigor simbólico, a estrutura perversa do caso Sister Hong: um sujeito que se traveste de imagem feminina e convida o outro a uma fantasia, apenas para capturá-lo secretamente com os olhos da câmera. É o voyeurismo elevado à cena social, o desejo de ver sem ser visto, de dominar a cena erótica sem participar diretamente dela, encontrando satisfação não no ato em si, mas na sua reprodução e comercialização. O espaço doméstico da pintura torna-se o equivalente simbólico do setting virtual criado por Sister Hong: uma falsa intimidade, cuidadosamente construída, onde o desejo do outro é explorado até o limite do consentimento. O olhar invasivo, ao mesmo tempo silencioso e cruel, é a metáfora perfeita do gozo que se alimenta da transgressão.

