Origem e sentidos de setembro no FAP
Entre os calendários informais da internet, setembro no FAP tornou-se uma marca cultural: um mês inteiro no qual jovens e adultos se propõem a uma abstinência sexual, em especial ligada à masturbação. Embora pareça apenas uma brincadeira contemporânea, é um fenômeno que revela algo mais antigo: o desejo humano de ritualizar o corpo e impor limites ao prazer.
Na história, práticas de continência sempre existiram: monges, guerreiros e ascetas buscaram em diferentes épocas o controle da sexualidade como caminho de disciplina e transcendência. A modernidade, no entanto, ressignificou esse gesto: não mais apenas espiritual ou guerreiro, mas cultural, midiático e até meme. Setembro, assim, deixa de ser só um mês e se torna um espelho da forma como lidamos com o prazer e com a culpa.
O que significa segurar o desejo
A abstinência voluntária não é apenas biológica: é simbólica. O ato de reter o impulso, de adiar o prazer, faz emergir perguntas íntimas:
- quem manda em quem?
- O corpo governa a mente, ou a mente governa o corpo?
Essa disputa nunca é neutra; carrega consigo vozes do passado, expectativas sociais e marcas familiares.
Quando o desejo é contido, algo nele se intensifica: o proibido atrai; o recalcado retorna. Setembro no FAP, ao propor um desafio coletivo, também coloca cada um diante de sua própria solidão pulsional. É um jogo de espelhos: renunciar para provar força, ou renunciar para negar a si mesmo?
Abstinência e sintomas invisíveis
Toda repressão abre espaço para sintomas. A energia que não encontra descarga busca saídas outras: ansiedade, irritabilidade, compulsões deslocadas. Setembro pode se tornar, então, mais do que um mês de teste, pode funcionar como revelador de conflitos latentes, mostrando que o desejo não se apaga: ele se disfarça.
A abstinência, quando vivida sem reflexão, pode ser apenas uma forma de empurrar para o subterrâneo aquilo que insiste em pulsar. O silêncio do corpo pode transformar-se em barulho da mente.
Obras Completas de Sigmund Freud – Conjunto de caixa, por Sigmund Freud
Culpa e prazer: entre extremos
Há ainda um outro risco: o de, após o prazer, surgir a culpa. Como se o gozo fosse uma falha, um erro, algo a ser escondido. Essa oscilação entre proibir e punir, entre resistir e ceder, faz com que a sexualidade se torne território de sofrimento, e não de vida. O que deveria ser espaço de encontro e expressão acaba marcado pela sombra da vergonha.
Negar o prazer pode ser tão adoecedor quanto perder-se nele.
Não se trata de escolher entre libertinagem ou abstinência absoluta, mas de sustentar um espaço interno onde o desejo não precise ser temido; onde o corpo e a mente possam dialogar sem tirania.
Considerações: Setembro no FAP?!
Setembro no FAP, ao ser vivido sem consciência, corre o risco de aprisionar em dois extremos: a repressão que sufoca e a culpa que castiga após o prazer. A sexualidade, quando não encontra vazão simbólica e corporal, torna-se um campo de sintomas e silêncios. É nesse ponto que cada um precisa se perguntar: o que faço com o meu desejo?
Dar voz a essa pergunta pode ser o primeiro passo para transformar o peso em caminho; o interdito em reflexão; a culpa em possibilidade de elaboração. Pois a vida não se sustenta apenas de renúncia, mas de encontros….encontros com o próprio corpo, com a própria verdade.
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por Leonid R. Bózio
Brasília, setembro de 2025 Anno Domini
IMAGEM: A imagem que acompanha este artigo é “O Jardim das Delícias”, tríptico pintado por Hieronymus Bosch por volta de 1500. Considerada uma das obras mais enigmáticas do Renascimento, a pintura percorre a criação, o gozo dos prazeres e a punição infernal, condensando em símbolos visuais a tensão entre desejo, repressão e culpa, exatamente os mesmos elementos que atravessam a reflexão aqui proposta.

