Existe, em muitas mulheres, uma dor que não se nomeia com facilidade: aquela que não vem de uma perda concreta ou de um trauma reconhecível, mas de um lugar mais sutil, mais íntimo. Uma sensação de estar sempre devendo algo, mesmo quando tudo parece estar em ordem. Uma tristeza que aparece no cuidado com os outros, na dificuldade de dizer “não”, na tendência a colocar-se em último lugar. Por trás desse movimento silencioso, uma presença quase invisível: a mãe.
A mãe como figura simbólica – não apenas como pessoa concreta, mas como marca psíquica, como modo de amar e ser amada, como exigência e como ausência. É nessa dimensão que a psicanálise freudiana se debruça sobre o vínculo materno: como origem do desejo, mas também como fonte de certas culpas que não cessam.
Quantas mulheres vivem aprisionadas a um ideal de cuidado herdado? Quantas sentem que amar significa se apagar, repetir o destino materno, cuidar sem parar até adoecer?
A Mãe Que Habita
Em análise, não é raro escutarmos relatos em que a mãe ainda parece morar dentro da filha, não como presença afetuosa, mas como voz julgadora, como espelho implacável. Por vezes, é uma mãe que exigiu demais; outras, uma mãe que tudo sacrificou e, com isso, deixou como herança o dever de repetir esse apagamento.
O drama é silencioso: por fidelidade inconsciente, muitas mulheres não se autorizam a viver diferente daquilo que a mãe viveu. Amar-se parece traição. Escolher algo que a mãe não pôde viver parece egoísmo. E assim, a história psíquica fica congelada num tempo que não passa.
Entre Cuidado e Culpa
Cuidar pode ser um gesto de amor… mas também uma prisão. Quando o cuidado vem carregado de culpa, medo ou obrigação, ele deixa de ser escolha e torna-se repetição. Freud nos ajuda a pensar essa repetição não como falha, mas como tentativa de elaboração: o que não foi simbolizado volta sempre – no corpo, nos vínculos, nas escolhas inconscientes.
A mulher que sempre diz “sim” pode estar revivendo o não-dito da mãe. A mulher que se cobra perfeição pode estar tentando aliviar a dor materna que nunca pôde consolar. A que não se permite descansar pode estar ocupando um lugar de sacrifício que aprendeu muito cedo a associar ao amor.
“Será que estou sendo como minha mãe? Ou será que estou tentando, sem perceber, salvá-la dentro de mim?” , eis uma pergunta que, em grupo terapêutico, costuma emergir com força. Não para julgar, mas para começar a distinguir o que é herança do que é escolha.
Escutar Para Escrever a Própria História
Na clínica psicanalítica, escutar é o primeiro gesto de liberdade. Quando uma mulher começa a falar da mãe, sem medo de ferir, sem censura, sem idealização, ela dá início a um processo de separação simbólica. Não se trata de romper vínculos, mas de criar espaço interno para ser mais do que a repetição do passado.
Ao escutar a mãe que habita dentro de si, uma mulher pode começar a escrever a sua própria história. Não mais sob a lógica do dever, da renúncia ou do sacrifício, mas sob o signo do desejo – aquele que pulsa mesmo quando foi abafado. O grupo, nesse sentido, funciona como espelho reparador: o que uma diz, muitas sentem; o que uma nomeia, outras começam a simbolizar.
Considerações
Toda mulher carrega dentro de si uma mãe, real, imaginária, simbólica. Algumas acolhem essa mãe com afeto; outras tentam silenciá-la; muitas se confundem com ela. A psicanálise nos convida a escutar esse vínculo com delicadeza e coragem, para que o amor não precise mais doer para existir. Que cada mulher, a seu tempo, possa transformar o peso herdado em palavra, e a culpa inconsciente em escolha consciente.
Imagem do artigo: Whistler’s Mother
Na pintura Whistler’s Mother, o silêncio pesa tanto quanto a figura. Sentada, rígida, voltada para dentro, ela não nos olha – e, talvez, nunca tenha olhado. Sua postura austera, quase funerária, transmite a ideia de uma presença que exige sem falar, que julga sem mover-se, que ama com rigidez.
Assim também é a mãe que permanece internalizada em tantas mulheres: uma figura que ensinou o amor pelo viés da renúncia, que transmitiu valores como quem impõe leis morais, e cuja voz, mesmo ausente, continua ecoando em forma de culpa. A imagem não retrata um momento de afeto, mas de contenção: e é nessa contenção que muitas filhas aprenderam a se fazer mulheres, calando seus desejos para não desagradar, sofrendo para manter o vínculo, vivendo sob o peso de uma fidelidade inconsciente que mascara o próprio querer.
Como na psicanálise, a tela não explica: ela convoca. E o que convoca, ali, é o questionamento de um amor que foi mais dever que liberdade – mais peso que gesto.
A figura materna e suas marcas internas ainda nos atravessam, mas podem ser elaboradas quando há escuta. Este é o convite do grupo terapêutico para mulheres: um espaço onde o silêncio encontra voz, e o amor começa a deixar de ser peso para se tornar presença.
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Os encontros são quinzenais, via Google Meet, sempre aos sábados. Se você deseja compreender a si mesma à luz da psicanálise, entre em contato. Nenhuma dor é pequena demais quando encontra um lugar de escuta.
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por Leonid R. Bózio
Brasília, de 2025 anno Domini

