Pulsão vs. Instinto: Uma Diferença Estrutural
Freud recusa o uso indiscriminado de “instinto” para descrever os processos humanos, uma vez que o instinto implica um roteiro biológico fechado, com um objeto e um fim pré-determinados. A pulsão, ao contrário, é marcada pela indeterminação de seu objeto e pela plasticidade de seus destinos: ela insiste, desloca-se, se reprime, se sublima. É um impulso que emerge do corpo, mas que exige um trabalho de simbolização por parte do aparelho psíquico.
Enquanto o instinto animal visa uma finalidade biológica clara, a pulsão humana implica a mediação da linguagem e do desejo. Por isso, Freud afirma: o eu não é senhor em sua própria casa — pois a pulsão opera por vias inconscientes, desafiando o controle racional.
As Quatro Determinações da Pulsão
No texto “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” e em outros escritos metapsicológicos, Freud define a pulsão segundo quatro características fundamentais:
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Fonte (Quelle): a origem corporal da excitação, geralmente uma tensão interna.
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Pressão (Drang): a força ou urgência com que a pulsão se manifesta no psiquismo.
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Meta (Ziel): a finalidade da pulsão, geralmente a supressão da tensão.
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Objeto (Objekt): aquilo que permite à pulsão atingir sua meta, ainda que substituível.
Esses quatro elementos mostram que a pulsão não é um comportamento, mas um conceito-limite: ela nasce no corpo, mas exige elaboração psíquica. Daí sua potência simbólica — e também sintomática, quando não pode ser representada.
A Dualidade Pulsional: Eros e Thanatos
A teoria pulsional de Freud passa por uma inflexão fundamental a partir do luto e da guerra. No ensaio Além do Princípio do Prazer (1920), Freud introduz a hipótese da pulsão de morte, contraposta às pulsões de vida:
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Eros representa as forças de ligação, construção, sexualidade e conservação da vida. Une, agrupa, deseja.
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Thanatos, por outro lado, expressa a tendência à repetição, à descarga total de tensão, à volta ao inorgânico. Age em silêncio, por trás do gozo que fere e do sintoma que insiste.
Essa dualidade não representa uma oposição simples: muitas vezes Eros e Thanatos estão entrelaçados, como no amor que destrói, ou na destruição que excita. A clínica das neuroses, das perversões e das psicoses testemunha, de modo inquietante, essa dança entre o desejo de viver e o apelo da morte.
O Destino das Pulsões
Freud ainda descreve os diversos destinos possíveis das pulsões: reversão ao oposto, retorno contra o próprio eu, repressão, sublimação. Esses destinos mostram como o trabalho do inconsciente e das formações de compromisso moldam a expressão pulsional, inclusive nos sintomas e nas escolhas de vida.
A pulsão, portanto, nunca é pura: ela se desdobra no conflito psíquico, é mediada pelo recalque, pelo supereu e pela transferência. Por isso, entender a pulsão é compreender que o sujeito está sempre em tensão — entre o que deseja, o que teme e o que não pode simbolizar.
Considerações
A pulsão em Freud é um conceito estrutural que inaugura uma nova forma de pensar o sujeito: não mais como agente racional de seus atos, mas como atravessado por forças inconscientes que, mesmo quando silenciadas, insistem em retornar. A pulsão revela que a vida psíquica é movida não por lógica, mas por desejo; e que esse desejo é, ao mesmo tempo, criador e destrutivo. Em sua complexidade, a teoria pulsional é uma chave indispensável para a escuta clínica e para a elaboração do sofrimento.
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por Leonid R. Bózio
Brasília, inverno de 2024 anno Domini