Psicanálise e Netflix: Monstro: A História de Ed Gein

Psicanálise e “Monstro: A História de Ed Gein”

A série Monstro: A História de Ed Gein (Netflix, 2025) reabre uma ferida na memória do crime americano, mas também nos oferece, ainda que sem intenção direta, uma das metáforas mais perturbadoras da mente humana. Ed Gein, o homem por trás dos crimes que inspiraram Psicose, O Massacre da Serra Elétrica e O Silêncio dos Inocentes, é menos um personagem de horror e mais um sintoma inquietante familiar (das Unheimliche): aquilo que é íntimo, mas nos causa horror.

Entre o amor e o horror: a mãe como abismo

Gein cresceu sob o domínio  de sua mãe, Augusta, uma mulher dominada por delírios religiosos e aversão à sexualidade. Freud, ao descrever o complexo de Édipo, já apontava o perigo de uma relação que nunca se resolve simbolicamente. Quando o desejo filial não encontra interdição, isto é, quando o pai simbólico não intervém, o sujeito pode permanecer aprisionado em um laço fusional.

Em Monstro: A História de Ed Gein, esse laço é o eixo de toda a narrativa. A morte da mãe não rompe o vínculo: ele passa a desenterrar corpos, criar máscaras de pele feminina e reconstruir, grotescamente, o corpo materno ausente. O horror não está apenas nos crimes, mas na tentativa desesperada de recompor o objeto perdido, o mesmo que,  funda toda neurose e, em casos extremos, a perversão.

O monstro nasce quando o amor se transforma em forma impossível.

A perversão como cena congelada

A perversão não é apenas como um desvio sexual, mas como uma negação do interdito. O perverso não ignora a Lei; ele a encena, a desafia, e ao fazê-lo, confirma sua existência. Ed Gein, ao vestir a pele de suas vítimas, parecia dizer: “Sou minha mãe; logo, ela nunca morreu.” É a tentativa mórbida de congelar o tempo, de sustentar um desejo impossível: o retorno do recalcado em carne viva.

A série traduz isso com intensidade: o olhar vazio de Gein não é o de quem desconhece o mal, mas o de quem não distingue o amor da posse, o sagrado do profano. Assim, Monstro: A História de Ed Gein torna-se uma espécie de caso clínico dramatizado: um espelho da perversão como fracasso do luto e da simbolização.

Do delírio à forma: o corpo como linguagem

A casa de Gein, coberta por objetos feitos de restos humanos, pode ser lida como uma metáfora psicanalítica: o sujeito transforma o trauma em forma, tenta “falar” através do corpo. Mas o que surge é o monstruoso, o símbolo invertido, o significante sem sentido.

Freud, em Totem e Tabu (1913), já havia indicado que a origem da cultura está na repressão do desejo incestuoso e do assassinato primordial. Gein parece regredir a esse ponto arcaico, dissolvendo os limites entre o desejo e a proibição, o sagrado e o abjeto.

Onde falta a palavra, o corpo fala e às vezes, grita.

O olhar clínico e o risco do fascínio

É fundamental não romantizar o monstro. A série corre esse risco ao dar ao espectador uma posição de voyeur: assistir à miséria psíquica de Gein pode, paradoxalmente, despertar empatia. Mas a psicanálise nos lembra que compreender não é absolver. É apenas reconhecer que o mal, antes de ser um mito, é uma possibilidade estrutural do humano  um retorno deformado do amor que não pôde ser simbolizado.

Em Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905), Freud já nos advertia: “As fronteiras entre o normal e o patológico são fluídas.” Nesse espaço de ambiguidade, surge o que chamamos de monstro: nem anjo, nem demônio; mas o espelho de um desejo que perdeu o nome.

Considerações

Monstro: A História de Ed Gein nos revela que o monstro não está apenas fora, mas dentro: é a parte de nós que não suporta a ausência, que não tolera o limite, que confunde amor com posse e vida com carne. A psicanálise nos convida a olhar para esse espelho com coragem; a reconhecer que o horror não é o oposto do humano, mas sua sombra mais próxima.
A verdadeira questão não é quem foi Ed Gein, mas o que ele desperta em nós.

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por Leonid R. Bózio
Brasília,  de 2025 anno Domini

 

2 comentários em “Psicanálise e Netflix: Monstro: A História de Ed Gein”

  1. Boa análise, mas parece haver uma certa imprecisão entre entre perversão e psicose, não?
    Às vezes parece serem “misturadas” a negação, típica da neurose, com a foraclusão, típica da psicose, o que torna inadequada a visão a partir do “retorno do recalcado” quando, na verdade, o mais adequado seria “o retorno do foracluído no real e compromete a conclusão baseada em Totem e Tabu, visto que ao Gein falta o Totem, pois lhe faltava a “lei” que serviria como referencial e ele buscava isso na materialidade do real. Concorda?

    1. opa!
      Agradeço muito pela leitura e pelo comentário! A diferença entre neurose, psicose e perversão é essencial, e o caso de Ed Gein realmente se aproxima mais da psicose do que da neurose. No texto, a ideia foi justamente mostrar como a ausência de um limite simbólico (aquilo que, em termos psicanalíticos, representa a “lei” ou a função paterna) deixou Gein sem referência para conter o impulso.
      Sua observação sobre o “retorno do foracluído no real” é muito precisa: em casos como o dele, não se trata do retorno do recalcado (como ocorre nas neuroses), mas daquilo que foi totalmente excluído do campo simbólico e retorna de forma crua, no real.
      E concordo plenamente com a leitura sobre o Totem e Tabu: a falta de um “Totem”, ou seja, da lei simbólica, ajuda a entender por que ele buscava algo concreto, quase material, para dar forma ao que não conseguia simbolizar.
      agradeço a participação!

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